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quarta-feira, 14 de março de 2012

Unnoticed, Embedded Racism/Speciesism

Estava eu navegando no Facebook, ao me deparar com uma corrente de compartilhamentos de (sic) 'defensores de animais', com o seguinte texto:

"Ambulantes de Santos - São Paulo, vendem cães vivos para consumo em navios coreanos. O porto de Santos, maior terminal marítimo da América Latina, vem sendo cenário de um cruel e ilegal tipo de comércio. Com navios do mundo todo atracados a poucos metros da margem, ambulantes aproveitam o ambiente atípico para ganhar dinheiro oferecendo animais como mercadorias. Segundo informações do site IG, além do comércio de drogas, o comércio de animais entre moradores e marinheiros é intenso. Os bichos são colocados em situações deprimentes para que as vendas possam ser efetuadas. O comércio de galinhas vivas é feito por meio de baldinhos presos a cordas que descem do deque dos navios. Moradores denunciam o comércio de cães, vendidos para coreanos, que têm o hábito de consumir a carne desses animais. “A gente achava que era pra eles criarem, mas depois disseram que eles fizeram um churrasco com o coitado”, diz Elisabete Santos, que anda desconfiada do carinho repentino que alguns vizinhos desenvolveram pelos cães da rua. No Brasil, a venda de cães para consumo, apesar de ilegal, existe. O comércio de vidas no porto de Santos e em tantos outros locais só fatura porque não há fiscalização."



Impressionante!

Não, não me refiro à imagem acima. Ela é banal. Apenas um quadro do que 30 quadros por segundo não conseguiriam retratar em tempo real da pseudo-vida a que submetemos diariamente alguns bilhares de animais de outras espécies.

O que me impressiona é como o simples fato de a espécie na imagem se tratar de cães consegue chocar a população de forma tão curiosa. É como se cachorros fossem nossos parentes mais próximos, e todos os demais animais fossem aqueles primos de 3º grau de quem a gente mal sabe o nome.


I. DOMESTICAÇÃO

Ninguém percebe que o mesmo acontece todos os dias com milhares de outros cães, gatos e outras espécies ditas 'domésticas'. E não! Não é para servirem de comida em países asiáticos. É para que você possa comprar seu lindo 'bichinho de estimação' no petshop. Não! Não tenho nada contra a ação de se criar animais 'domésticos', até porque o habitat que um dia lhes pertenceu já não mais existe - "perdeu, preiboy! Os homi já pegaro tudo" - e o máximo que podemos fazer na situação atual é tentar lhes fornecer algum conforto em nossos lares.
- "Ah, eu amo cachorro!"
Será, mesmo? Existem aos milhares em abrigos te esperando, sem contar com os que desfilam nas ruas diariamente, muitas vezes abandonados por antigos 'donos' e gerando mais e mais descendentes.
- "Ah, eu adotaria, mas é que quero um Schnauzer/poodle/bulldog."
Você pode nem se dar conta, mas isso é literalmente racismo.


O Brasil é um dos poucos países de que já ouvi falar onde a demanda por adoção de crianças (número de pessoas interessadas em adotar) é muuuuuito superior à oferta (quantidade de crianças disponíveis para adoção) e, mesmo assim, pouco mais de 10% das crianças conseguem um lar.
- "Mas como pode?"
Simples: os tais 'pais' interessados em adotar fazem algumas restrições: querem crianças de até N anos e brancas (e de preferência loirinhas e de olhos azuis, né?). E, (sic) infelizmente, nossa oferta de crianças disponíveis para adoção não veio importada da Europa - elas são brasileiras! :O (incrível, não?). É uma espécie de embedded-nazism.

Crio um cachorro e um gato. O cachorro foi encontrado, ainda bebê, por meu irmão, dentro de uma caixa, na rua, ao lado do lixo - pronto para ser processado. O gato foi encontrado por minha ex-namorada, também ainda bebê (ele!), junto com seus 3 irmãos, também dentro de uma caixa, e ela conseguiu adoção para os outros 3 - o meu foi o último, o rejeitado, e adivinha por quê? Será que era porque ele era o único todo preto? Talvez apenas uma mera coincidência. As pessoas compartilham campanhas anti-racismo pelo Facebook ao mesmo tempo em que praticam racismo todos os dias, com pequenas ações, e nem se dão conta.

Cada comprador de bichinhos de pet-shop deveria conhecer o comércio criminoso por trás das vitrines. Mal sabem que uma fotografia aqui seria muito similar à acima. Quanto a você que compra aquela raça "bem-cotada" já pensando em fazer um pé-de-meia com a venda dos futuros filhotinhos, torço para que um dia seu bebê loirinho dos olhos azuis seja sequestrado da maternidade e que a kidnapper faça carreira com seus decendentes... Brinks! Afinal, a criança não tem culpa dos pais que tem.


II. VESTUÁRIO

Ninguém percebe que o mesmo acontece todos os dias com milhares de felinos, répteis e alguns mamíferos, e não, não é para servirem de comida a perdidos na selva. É pra que você possa comprar seu lindo casaco de pele, sapato de couro e o escambal, utensílios (sic!) tão essenciais e insubstituíveis! Não, não tenho nada contra o uso de casacos, sapatos e nem contra o escambal. Apenas não vejo necessidade alguma de se patrocinar um crime nojento, que é o mercado de tecido animal. E não! Não vou colocar aqui nenhum videozinho de como é a vida destes animais, desde o momento em que são caçados até àquele em que sua pele/couro é retirada. Fique aí você imaginando que o tadinho morreu de velhice e que, então, sua pele foi retirada apenas para que pudesse servir para humanos necessitados - afinal, eles assinaram serem doadores de órgãos interespecíficos.

Existem muitas alternativas sintéticas no mercado. Reflita; você não precisa disso!


III. ALIMENTAÇÃO

Ninguém percebe que o mesmo acontece todos os dias com milhões de bovinos, caprinos, suínos, aves, peixes, crustáceos e outras classes, e sim, desta vez é sim para servir de alimento para você! Não, não tenho nada contra o ato de se alimentar, que, além de uma necessidade básica, é, inegavelmente, um dos maiores prazeres da vida. Apenas não vejo necessidade alguma de se patrocinar um comércio insustentável, inescrupuloso e cruel como a pecuária extensiva. Menos ainda vejo eu necessidade de condenar à minha mesa a vida de milhares de outros animais.

"Ah, mas é necessário comer carne! A proteína..."
Reflita, ok? Existem muitos mitos acerca da suposta necessidade humana por ingestão de carne e outros derivados animais. Mas, se você leu até aqui, possivelmente você não é mais um daqueles que acreditam em tudo o que ouvem/veem sem antes irem pesquisar mais a respeito. Certo?
(aguardando confirmação....)

"Ah, mas é tão bom comer carne!"
Não é porque é bom que necessariamente faz bem (a você e a outros tantos seres), né? Sem contar que é possível encontrar pratos tão bons, ou, quem sabe, ainda melhores, sem carne.

"Ah, mas é uma tradição humana!"
Não é porque nossos ancestrais começaram a praticar algo que temos que perpetuá-lo. Cadê a evolução? As gerações evoluem e se permitem refletir sobre as práticas de seus ancestrais, chegando a conclusões surpreendentes. Muitas ações que, há algumas décadas ou séculos, eram tradições são hoje proibidas e vistas por muitos de nós com 'vergonha alheia' de seus antepassados.



FATO 1:
A imagem não tem nada a ver com Santos - SP, nem com o Brasil. Estes cães estavam sendo transportados no continente asiático entre Laos e o Vietnã.

DICA 1:
Ao propagar em broadcast uma informação, pesquise fontes e se certifique de que não se trata de um hoax.
Matéria original em:
http://www.dailymail.co.uk/news/article-2025402/The-heart-breaking-pictures-1-000-dogs-stuffed-cages-sold-meat--theyve-rescued.html


FATO 2:
Alguns brasileiros que haviam compartilhado a imagem alegando estarem envergonhados e revoltados, ao perceberem que não era no Brasil, simplesmente se esquivaram, numa reação de "Ah! Então não tenho nada a ver com isso. Está tudo bem!". A revolta passou junto com a fronteira geográfica.


DICA 2:
Ao propagar em broadcast uma ideia, reflita sobre o que você pode absorver dela.