2007. Um amigo da faculdade se tornando vegetariano. Eu, então muito ignorante, tirava aquela onda: "viadagem!", "frescura!" e por aí vai. Sua então namorada, filha de vegetarianos, nunca comera carne, e através dela ele descobriu, aderiu e propagou o vegetarianismo. Lembro bem que algumas pessoas na faculdade também aderiram "à moda", influenciadas por um documentário que ele mandara. Eu, então muito preconceituoso, nem o documentário quis ver. Ignorei.
2008. Um dos meus melhores amigos em processo de se tornar vegetariano - processo longo, ressalte-se, pois até hoje ele ainda não virou (sic!). Mais uma vez, no ápice da minha ignorância, abusava de brincadeiras, piadinhas e tudo mais. Eu achava a maior frescura quando ele dizia que não ia comer o feijão da feijoada porque ele tinha sido feito junto com a carne. -oi?
2009. Uma amiga vegetariana aqui. Outro ali. Outra acolá. Já contava uns 10 amigos vegetarianos. Pessoas a quem eu atribuía muita sensatez e discernimento. Não fazia sentido, todavia. Dei-me ao luxo de sair da minha zona de conforto e pesquisar um pouco para entender, se é que havia o que se entender, o porquê de tamanha 'frescuragem' e 'modismo' (e aqui fica a dica: se você não estiver aberto à possibilidade de se tornar vegetariano, não pesquise; continue ignorando os fatos, que assim você viverá muito melhor consigo mesmo).
Não me aprofundei muito. Mas uma pesquisa superficial foi o suficiente para eu ver que fazia um certo sentido. Que tudo se encaixava. E eu passei a não mais brincar com eles. Só de leve. Lembro bem que, no meu aniversário de 2009, em cuja comemoração haveria churrasco, eu marquei, no orkut, todos os meus amigos vegetarianos em plantinhas, matinhos e tudo mais que era verde. Dessa vez já não era mais por ignorância - era só pra descontrair mesmo; afinal, eu já lhes dava toda a razão, embora não demonstrasse. Era, digamos, estranho. Nas rodas de discussão, quando o assunto surgia, eu era um dos que mais discursava a favor do vegetarianismo, tanto que as pessoas pensavam que eu fosse vegetariano. Que nada, quando chegava em casa ia direto ao bifão, na maior 'cara de pau'.

Hipócrita, sim! Era isso que eu era. Defendia e pregava uma coisa, e fazia outra, e agia como se tudo estivesse OK. E tava. Dentro do meu egoísmo, não havia espaço para deixar de lado os sabores e aromas da carne. Logo eu, que enchia o prato com 6, 7 sabores diferentes de carne nesses restaurantes self-service. Logo eu, que não comia mais quando a carne acabava. Logo eu, que não comia verduras - e achava que (sic!) ser vegetariano = comer salada (você também acha? rs).
Tal atitude hipócrita me acompanhou por meses. Vários meses. Lembro bem que, no dia 31 de dezembro, já próximo da virada, eu brinquei: "É, faltam só alguns minutos pro ano acabar e eu não parei de comer carne.. quem sabe próximo ano?!". Mal sabia o quão a sério eu levaria essa ideia dentro de alguns dias.
2010. Ê, doismiledez... Que ano! Ano de muitas novidades, de muitas coisas boas. Ano de mudanças, de reflexões, de ações. E o vegetarianismo veio com tudo. Ainda em janeiro, comecei a refletir seriamente sobre minhas atitudes, afinal, intitulara mentalmente o ano vindouro como um ano de "
innovation, renovation and excellence". Vegetarianismo estava na pauta. Estando de férias, resolvi pesquisar. Mais. Aprofundar-me. Pois, embora eu já tivesse uma mente teoricamente vegetariana, muitas dúvidas e incertezas ainda me impediam de ir além. Eu não queria ser um desses que se torna vegetariano por impulso, por emoção, e não aguenta a pressão. Não queria ser um vegetariano desinformado, que não sabe defender suas ideias, contestar os pré-conceitos, derrubar mitos. Não queria ficar doente e depois jogarem a culpa à minha opção. Não queria ser um vegetariano infeliz com minha alimentação, afinal sou dotado de paladar - e comer é, sim, um prazer. Não queria que fosse apenas uma experiência, uma fase passageira, como acontece com muitos. Queria a consciência, a certeza, e que após minha decisão um flashback não fosse mais cogitado.
Pesquisei. Muito. Não tinha o que fazer, então pesquisava umas 2h por dia sobre o assunto. Nesse meio tempo, fui parando, aos poucos, a carne vermelha - como geralmente todo vegetariano inicia seu processo. Era janeiro, e eu me revezava entre o peixe, o frango e derivados de ovo e leite. Enquanto isso, pesquisava mais. Estudei biologia, estudei história. Lia livros de especialistas no assunto para me aprofundar na temática, artigos científicos para conhecer resultados de pesquisas afins, sites de medicina/nutrição para entender melhor sobre nutrientes e nosso processo digestivo, via documentários para ficar a par de fatos e relatos, lia blogs para conhecer a culinária vegetariana, via filmes, notícias, revistas e comunidades no Orkut para ver depoimentos. Li e vi muita coisa. Estudei durante umas 6 semanas. Cheguei a um ponto em que já não tinha mais dúvida alguma acerca de ser o certo a fazer. Sem grilos, sem receios e sem pré-conceitos, decidi parar a carne de vez, além de qualquer outro derivado de animal morto. Era final de fevereiro. Eu já estava preparado psicologicamente para tudo que essa minha decisão iria trazer, como dificuldades para encontrar comida na rua no dia a dia, brincadeiras de amigos e familiares e dezenas de outras situações 'cômicas'. Parei. As primeiras reações foram as que eu já esperava. Não me assustei, pois me vi reagindo à abordagem alguns anos antes. Banal.

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Quando você se torna vegetariano, é normal achar que todo mundo está errado (e está mesmo ;P), querer e achar que vai conseguir mudar o mundo. Você cria metas inatingíveis, expectativas inalcançáveis; e depois cai na real. Você percebe que mudanças levam tempo. Analisando o histórico da escravidão, por exemplo, você se dá conta de que tudo é uma questão de abrir a mente, manter-se persistente, propagar ideias e agir. Ação. Só com ação se consegue alguma mudança. Mas só o tempo traz um retorno. O tempo faz com que, inclusive, novas gerações sintam
#vergonhaAlheia de gerações passadas, por seus atos e tradições.
Quem me conhece sabe que não sou muito emotivo. Procuro sempre agir com a razão. Mesmo quando meus atos têm um apelo emocional, há um racionalismo intrínseco. O que me levou a tomar esta decisão que, sim, muda muito a sua vida (para melhor!) foi, portanto,
informação.
Informação + reflexão + sensatez.
P.S.: Se você for muito curioso, pense duas vezes antes de pesquisar a respeito, pois nem todos estão preparados para se permitirem uma boa reflexão.